O Brasil já soma 463 denúncias de assédio eleitoral no trabalho em 2026, segundo o Ministério Público do Trabalho (MPT), conforme a cobertura da Você RH. Além disso, só em setembro foram 199, cerca de 43% do total do ano até agora. Com o primeiro turno marcado para 4 de outubro, o RH que ainda trata o tema como “política fora do expediente” chega atrasado, porque o pico de denúncias já está acontecendo.
Por isso, este artigo reúne um roteiro prático para líderes de RH, jurídico e comunicação interna até o primeiro turno, e que vale também para um eventual segundo turno, em 25 de outubro.
O que os dados mostram
Além do volume registrado pelo MPT, o Tribunal Superior do Trabalho (TST) identificou padrões nos processos analisados:
- 67,4% envolvem meios virtuais, como e-mail e redes corporativas, e o WhatsApp aparece em 37% dos casos;
- 81,9% relatam terror psicológico;
- 48,6% incluem ameaças de demissão;
- 92% têm traços de assédio institucional, situação em que a organização permitia, estimulava ou legitimava a prática.
Ou seja, o risco vai além da ordem explícita para votar em determinado candidato. Ele aparece na hierarquia, no tom de brincadeira, no link enviado ao grupo da equipe e na sensação de que um voto seria “o da empresa”.
O que a regra diz
A regulamentação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) veda propaganda eleitoral e assédio eleitoral no ambiente de trabalho, público ou privado, e responsabiliza quem der causa ou permitir a ocorrência. No entanto, a lei não proíbe empregadores, gestores ou trabalhadores de terem opinião política. O problema surge quando a relação profissional interfere na liberdade de escolha, principalmente se quem fala controla salário, promoção, escala, férias ou permanência no emprego.
Quatro perguntas que toda liderança deve fazer antes de falar:
- Quem está falando: um colega ou um superior?
- Em qual canal: pessoal ou corporativo?
- Para quem: um subordinado direto?
- Que mensagem um ouvinte razoável pode entender: pressão, vantagem ou ameaça?
Portanto, “foi só brincadeira” não elimina o risco quando existe relação de poder.
Checklist até o primeiro turno
- Comunicado de neutralidade (esta semana). Texto curto, assinado pela direção e pelo RH, com cinco pontos: respeito à liberdade de convicção política; proibição de usar cargo, meta, escala ou ameaça, mesmo velada, para influenciar voto; canais corporativos fora da propaganda partidária; proibição de retaliação ou vantagem por posicionamento político; canal seguro para relatar constrangimento, com proteção a quem denuncia.
- Orientação aos gestores (antes do dia 4). Um e-mail não basta. Por isso, reúna as lideranças por 20 a 30 minutos, com exemplos do que evitar (perguntar voto, falar em “candidato da empresa”, ameaçar emprego de forma velada) e do que fazer (encerrar a pressão no grupo e encaminhar o caso ao RH). Supervisores e encarregados também falam pela empresa diante de quem lideram.
- Regras para canais digitais. Proíba propaganda político-partidária em e-mail, intranet, grupos de trabalho e aplicativos oficiais. Deixe claro que grupos informais de equipes sob gestão da empresa também entram no radar, e separe, na prática, o canal pessoal do profissional.
- Canal seguro com prazo de resposta. Afinal, denúncia sem retorno rápido tende a chegar ao MPT. Por isso, defina um canal confidencial, com alternativa para quando o acusado for do próprio RH, um prazo de acolhimento (por exemplo, 24 a 48 horas úteis), um fluxo com jurídico e compliance e proteção explícita contra retaliação.
- Plano para quando a denúncia chegar. Registre e preserve as evidências (prints, datas, canais). Em seguida, afaste conflitos de interesse na apuração, adote medidas cautelares se houver risco de intimidação e comunique com cuidado para não expor quem denunciou. Ao final, pergunte se a falha foi individual ou se o clima institucional permitiu.
Atitudes que agravam o risco
- proibir toda conversa política entre colegas de modo autoritário e desigual;
- ignorar as “piadinhas” de gestor porque “sempre foi assim”;
- esperar o primeiro turno para agir;
- achar que só o dono da empresa precisa de cuidado, quando a fala de quem define escala e meta pesa igual ou mais.
Opinião e pressão: onde fica a fronteira
Ter posição política é lícito. Usar a hierarquia para pressionar o voto, não. Por isso, vale treinar as lideranças com exemplos:
- Aceitável: dois colegas comentam uma notícia no almoço, sem meta nem medo envolvidos.
- Risco: o gestor pergunta o voto na conversa de desempenho.
- Risco alto: mensagem no grupo da equipe associando emprego a resultado eleitoral.
- Risco alto: reunião “informativa” que, na prática, faz campanha.
Assim, nomear esses padrões ajuda a liderança a reconhecer o próprio comportamento.
Depois do primeiro turno
Se houver segundo turno, em 25 de outubro, a mobilização política continua. Por isso, mantenha o comunicado vivo, reforce a orientação na semana seguinte a 4 de outubro e monitore os canais. O Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) firmado pelo MPT com empresas do Grupo VAX em setembro proibiu questionamentos sobre preferência eleitoral, propaganda em canais corporativos e reuniões para influenciar voto. Ou seja, ele mostra o tipo de compromisso que a fiscalização espera ver.
Para líderes de RH
As 463 denúncias representam risco trabalhista, reputacional e, em alguns cenários, criminal, concentrado agora, a poucos dias do primeiro turno. Portanto, trate o assédio eleitoral como tema de governança e liderança, e não apenas de conformidade eleitoral. Comunique neutralidade, treine quem tem poder hierárquico, feche os canais corporativos para propaganda e garanta uma denúncia segura.
Se a sua empresa ainda não publicou uma orientação clara, faça isso hoje. O Burh aplica ao tema a mesma lógica dos demais riscos psicossociais: prevenção visível, responsável definido para cada ação e um canal que funciona. Afinal, esperar o conflito chegar ao MPT é a estratégia mais cara. definido para cada ação e um canal que funciona. Esperar o conflito chegar ao MPT é a estratégia mais cara.


