Em 2025, 546 mil trabalhadores brasileiros ficaram fora do trabalho por transtornos mentais.
Não é dado de pesquisa de clima. É dado do INSS. São afastamentos com CID, com benefício pago, com posto vazio. E o número cresceu cinco vezes em relação ao ano anterior.
Os registros de burnout triplicaram entre 2023 e 2025, de 1.760 para 6.985 casos. As licenças por saúde mental duram, em média, o dobro das licenças por qualquer outra doença.
A partir deste mês, ignorar esses números tem custo jurídico.
O que mudou com a NR-1
A Norma Regulamentadora 1, atualizada pelo Ministério do Trabalho, passou a exigir que empresas incluam riscos psicossociais no Programa de Gerenciamento de Riscos, o mesmo instrumento que já existia para riscos físicos e químicos. Isso significa identificar, avaliar e controlar fatores como sobrecarga de trabalho, assédio, ausência de autonomia, gestão agressiva e jornada sem limite entre vida pessoal e profissional.
A fiscalização efetiva começa agora, em maio de 2026. A multa por trabalhador exposto a risco não gerenciado é de R$ 6.708,08. Por trabalhador. Empresas com centenas de funcionários sem esse mapeamento estão operando com passivo jurídico relevante sem saber disso.
Mas a multa é a parte menos importante dessa história.
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O que a lei está dizendo nas entrelinhas
A NR-1 não inventou o problema. Só tornou ilegal fingir que ele não existe.
A cultura do “disponível 24h” tem nome técnico na norma: risco psicossocial. O WhatsApp do gestor às 22h, a reunião marcada na sexta às 17h45, o “só uma coisinha” que chega no sábado de manhã são jornada extenuante com potencial de adoecimento documentado. E agora precisam estar no mapa de riscos da empresa, com controles registrados.
A França aprovou o droit à la déconnexion em 2017. Portugal, Bélgica e Espanha seguiram. O Brasil demorou, mas chegou por um caminho que nem sempre agrada: via punição, não via convicção.
O RH que antes tinha só um argumento de bem-estar para defender políticas de desconexão agora tem um argumento legal junto. São argumentos de natureza diferente, mas têm o mesmo efeito em certas reuniões de liderança.
O que o RH precisa fazer de verdade
O diagnóstico honesto primeiro: a maioria das empresas não tem mapeamento de riscos psicossociais estruturado. Pesquisa de clima cumpre outra função. Programa de EAP também. Nenhum dos dois substitui o processo que a norma exige.
O que a NR-1 pede é identificação dos fatores de risco, avaliação da exposição, plano de controle e monitoramento. Um processo com dono, ciclo e evidência de execução. Não um documento para arquivar na pasta de conformidade.
E o cumprimento da norma não é destino. É ponto de partida.
Empresa que faz o mapeamento, documenta os riscos e não muda nada cumpre a lei no papel enquanto o adoecimento continua na prática. Os 546 mil afastamentos de 2025 vão crescer se o único movimento for compliance sem mudança de cultura.
A pergunta que vale fazer antes de qualquer ação: se mapeássemos os riscos psicossociais da nossa empresa com honestidade hoje, o que apareceria? E o que faríamos com isso?
A NR-1 chegou depois dos dados. O Brasil esperou os números ficarem impossíveis de ignorar para transformar isso em lei.
A empresa que esperar a autuação vai pagar a multa e continuar com o problema. Tratar os dados como sinal, não como estatística, é o que muda a sequência.


