No final de março, o GP Brasil de MotoGP em Goiânia fez algo sem precedente na história da categoria: encurtou a corrida de 31 para 23 voltas.
Não por acidente. Não por chuva. Pelo calor. Com 148 mil pessoas na arquibancada, a decisão foi tomada em tempo real porque a temperatura estava alta demais para que os pilotos continuassem com segurança.
Repare na frase: alta demais para continuar com segurança. Profissionais de alto rendimento, no pico de carreira, treinados para suportar condições extremas. E, em algum ponto, o limite foi atingido mesmo assim.
O que aconteceu fisiologicamente é mais interessante do que parece.
O governador que você não sabia que tinha
Tim Noakes, fisiologista da Universidade da Cidade do Cabo, desenvolveu nas últimas décadas o que chamou de central governor theory. A ideia central é simples: o cérebro não espera você chegar ao limite físico real para reduzir o esforço. Ele age preventivamente.
A partir de determinada temperatura corporal (em torno de 38 graus), o cérebro começa a enviar sinais de fadiga e redução de esforço antes de qualquer dano real acontecer. É proteção antecipada. O sistema nervoso central, monitorando a temperatura dos órgãos vitais, decide que é melhor frear agora do que arriscar dano irreversível depois.
Os pilotos não precisariam chegar ao colapso para que a corrida fosse encurtada. O organizador tomou uma decisão que o cérebro deles já estaria considerando.
O que é fascinante, e também perturbador, é que o mesmo mecanismo opera em contextos cognitivos e emocionais. O cérebro não distingue sobrecarga térmica de sobrecarga de trabalho com a mesma precisão que a gente gostaria.
As 23 voltas que você não vê
Sobrecarga cognitiva crônica, privação de sono, pressão emocional sustentada, ambiguidade de função, conflito interpessoal não resolvido: todas essas condições ativam respostas de estresse que, cumulativamente, funcionam como aquele calor de Goiânia.
O cérebro começa a cortar voltas antes que você perceba.
Os sinais são sutis no começo: decisões que demoram mais do que deveriam, criatividade que sumiu sem explicação aparente, irritabilidade fora de proporção com o gatilho.
Depois ficam mais visíveis: erros simples que você não cometeria descansado, incapacidade de priorizar com clareza, a sensação de estar em reuniões sem conseguir processar o que está sendo dito.
A organização lê esses sinais como baixa performance, desmotivação, “falta de comprometimento”. Raramente como o que são: o governador trabalhando.
Quem encurtou a sua corrida?
No MotoGP, alguém de fora tomou a decisão. Organizadores, monitores de temperatura, estrutura de segurança: havia um sistema externo que identificou o limite e agiu antes do colapso.
No trabalho, essa decisão geralmente não existe.
A pessoa que já está nas suas 23 voltas, que já ativou o governador, que já está em modo de preservação sem saber, continua sendo cobrada pelas 31. O sistema não ajusta. A meta não muda. A reunião extra foi marcada mesmo assim.
E a gente, como RH e como gestão, muitas vezes não tem nem os instrumentos para saber a diferença entre “essa pessoa está rendendo abaixo do potencial por vontade” e “essa pessoa está rodando em calor extremo e o governador já entrou”.
A distinção importa. Muito.
O que dá para fazer com isso
Não tem solução mágica. Mas tem diagnóstico honesto.
Alguns sinais organizacionais que valem atenção: times que nunca recusam demanda (é improvável não haver sobrecarga quando nenhum limite é comunicado), reuniões que se acumulam sem tempo de processamento entre elas, culturas em que “ocupado” é virtude e “preciso de folga” é fraqueza.
O governador não é fraqueza. É sabedoria do sistema nervoso. A questão é se a cultura da organização permite que as pessoas o ouçam, ou se a pressão para “continuar as 31 voltas” é grande demais para qualquer sinal interno ser levado a sério.
Quando a temperatura sobe, até o melhor piloto do grid para. Não porque desistiu. Porque o sistema diz que 23 voltas hoje garantem a largada amanhã.
Às vezes, a gestão mais inteligente é reconhecer quando encurtar a corrida.


